Hoje acordei bem cedo , mesmo sem o despertador, tentei inutilmente recuperar o sono, e só consegui trazer velhas lembranças, já quase esquecidas , enquanto rolava na cama. Me perdi em devaneios ao recordar a voz dele, seus lindos olhos verdes, seus carinhos, seu cheiro.Ah! seu cheiro... Ainda impregnado em mim como um perfume permanente.
È incrível, mas mesmo apesar de tantos anos- quase vinte se não me falha a memória- ele ainda se faz presente em exatamente tudo, cada objeto, cada cômodo da casa, ou até mesmo uma música. Voltei a realidade ao perceber que uma lágrima rolou pelo meu rosto velho, fico triste ao me olhar no espelho , pois sempre tive medo de envelhecer, e agora com as rugas a pele cada e as profundas olheiras, percebo que elas não revelam apenas minha idade, revelam também a dor do amor que trago por dentro e o sofrimento por tê-lo perdido
Ouço risos vindos da sala, as crianças já devem ter se levantado para ir à escola , me arrumo, desço as escadas, tomo o café da manhã , tudo automaticamente, isso faz parte de minha rotina entediante , só esperando a hora de partir para reencontrá-lo , as dias passam como anos, e os anos se arrastam como décadas , e a cada dia há menos vontade de viver em mim. Um sorriso falso estampa meu rosto ao ouvir um “ tchau vovô!”, se pelo barulho da porta batendo.me levanto em seguida , sinto o vento do outono soprar na varanda enquanto me sento na velha rede xadrez tentando admirar a paisagem , que já não me encanta em nenhum aspecto ( na verdade nada me encanta mais nos últimos vinte anos) .
Tudo aqui me remete a momentos que vivi com ele , as caminhadas enquanto o sol se punha, ou aquela canção ridícula que ele insistia em cantar quando ordenhávamos as vacas
E assim tento passar meus últimos dias de vida, vivendo por ele o que ele não pôde viver, pensando nele a cada segundo, pois não se pode esquecer um amor , não quando foi verdadeiro, só se pode carregar a dor de não tê-lo aproveitado ao máximo enquanto podia...
May A.
May A.





