domingo, 5 de dezembro de 2010

Mais um conto: Lembranças


                Hoje  acordei bem cedo , mesmo sem o despertador, tentei  inutilmente  recuperar o sono, e só consegui  trazer velhas lembranças, já quase esquecidas , enquanto rolava na cama. Me perdi em devaneios ao recordar a voz dele, seus lindos olhos verdes, seus carinhos, seu cheiro.Ah!  seu cheiro... Ainda impregnado em mim como  um perfume permanente.                   
               È incrível, mas mesmo  apesar de tantos anos- quase  vinte se não me falha  a memória-  ele ainda se faz presente  em exatamente tudo, cada objeto, cada cômodo da casa, ou até mesmo uma música. Voltei a realidade ao perceber que uma lágrima rolou pelo meu rosto velho, fico triste  ao me olhar no espelho , pois sempre tive medo de envelhecer, e agora  com as rugas  a pele cada e as profundas olheiras, percebo que  elas não revelam apenas minha idade, revelam também a dor  do amor que trago por dentro e o sofrimento por  tê-lo perdido 
              Ouço risos vindos da sala, as crianças já devem  ter se levantado para ir à escola , me arrumo, desço as escadas, tomo o café da manhã , tudo automaticamente, isso faz parte de minha rotina  entediante , só esperando a hora de partir para reencontrá-lo , as dias passam como anos, e os anos se arrastam como décadas    , e a cada dia há menos vontade de viver em mim. Um sorriso falso  estampa meu rosto ao ouvir um “ tchau vovô!”, se pelo barulho da porta batendo.me levanto em seguida , sinto o vento do outono soprar na varanda  enquanto  me sento na  velha rede xadrez tentando  admirar a paisagem , que já não me encanta  em nenhum aspecto ( na verdade nada me encanta mais  nos últimos vinte anos) . 
              Tudo aqui me remete a momentos que vivi com ele , as caminhadas  enquanto o sol se punha, ou  aquela canção ridícula que ele insistia em cantar quando ordenhávamos as  vacas
              E assim tento passar meus últimos dias  de vida, vivendo por  ele o que ele não pôde viver, pensando nele a cada segundo, pois não se pode esquecer um amor , não quando foi  verdadeiro, só se pode carregar a dor de não tê-lo aproveitado  ao máximo enquanto podia... 
May A.